Luiza Maximo, 1996, é Bacharel em Design Gráfico e ilustradora aquarelista auto-didata. De Belo Horizonte, mora atualmente em São Paulo. Sua pesquisa autoral busca afinidades entre artes visuais e design através da observação do cotidiano e do ordinário. Ao nos deparamos com uma de suas artes muitas vezes fica a questão: o que é pintura e o que é realidade? 

Nos detalhes nunca vistos de uma chave tetra ou a imagem pintada de uma embalagem de bala que nos remete a infância, Luiza nos traz o desafio ao olhar para seus desenhos em papel hiper-realísticos que nos envolvem em seus detalhes por várias horas. Aqui, você confere um pouco mais sobre essa moça em que o sobrenome já mostra ao que veio ao mundo. Confira nossa entrevista:

FTC ENTREVISTA LUIZA MAXIMO – AQUARELAS HIPER-REALÍSTICAS

FTC: Como surgiu a ideia das aquarelas hiper-realísticas usando objetos comuns do dia a dia? 

Desenho desde muito nova e como acontece com vários artistas no início da jornada com arte, se tem uma ideia de que desenhar “bem” é representar o que vemos da forma mais próxima da realidade o possível. Acho que até é um processo legal, de entender a realidade para depois tentar distorcer e tudo mais, e foi meio essa minha jornada: sou autodidata e sonhava conseguir desenhar pessoas “de cabeça”, sem referência e elas ficarem muito reais.

Num certo ponto da prática resolvi testar minhas habilidades substituindo o grafite pela tinta e pensei em começar do mais fácil, com algo inanimado. Fiz uma caixinha de fósforos e fiquei muito surpresa com o quão parecido ficou com a foto, além de todo o processo da pintura ter sido extremamente prazeroso: ficar ali horas e horas olhando pra uma foto, descobrindo e pincelando cada detalhezinho. Depois de um tempo consegui pintar pessoas e cenas, mas meu xodó mesmo são os objetos!

No processo de pintar objetos, eles para mim se parecem com várias coisas menos com o que são de verdade! Como eu os pinto no tamanho mais próximo do real possível, acabo tendo que dar muita atenção pros detalhes. Se você olhar de bem perto uma pintura, as sombras e luzes em diversos tons parecem até uma pintura abstrata.

No final das contas pra mim um objeto, por mais ordinário que seja, tem em si um universo de cores e formas que passam despercebidos normalmente e é isso que eu acho lindo: o contraste que existe na complexidade contida em algo tão aparentemente simples que a gente nem dá atenção. Meus objetos, na verdade, podem ser várias coisas além do que mostram, tanto na forma quanto no olhar, só é preciso atenção para perceber!

FTC: Quais as influências que estão por trás dos seus desenhos? 

Alguns nomes que tenho como referência na aquarela são Mario Zavagli e Marcos Beccari, com suas aquarelas hiper-realísticas impecáveis, e Nick Runge, nos retratos, com manchas e sobreposições de cor que enchem os olhos. Outros artistas que admiro muito são a Julie Mehretu que faz painéis gigantes e incrivelmente trabalhados, a Cecily Brown na pintura abstrata com suas formas meio morfológicas meio tinta, o Jesus Perea com suas colagens e desenhos geométricos e o John Baldessari pela sagacidade e bom humor.

FTC: Poderia nos explicar qual é a principal proposta do seu trabalho? 

Eu sou uma pessoa extremamente curiosa, crítica e bem humorada e acho que minhas aquarelas me resumem bem nesses parâmetros! Se eu fosse escolher uma palavra que me representa penso que seria “provocar”. Acho muito interessante enfrentar quem olha com uma imagem muito familiar, mas, ao mesmo tempo, muito estranha.

Primeiro se descobre: é uma pintura e não uma foto, depois se vê uma coisa que em si não é, vamos dizer, uma natureza morta renascentista (um papel de bala de 10 centavos por exemplo) e que, ainda por cima, parece estar flutuando num papel branco totalmente alheia ao seu contexto original. Gosto da ironia dessa ressignificação de objetos tão desimportantes em pinturas como se fossem aquarelas botânicas, como se eu tentasse catalogá-los num esforço totalmente desproporcional aos seus valores, levando 8h para pintar uma moeda de 5 centavos por exemplo.

FTC: O que deseja passar para o público?

Gostaria de oferecer a experiência que eu mais gosto com a arte: que seja um convite a sair de si mesmo por um segundo e fazer com que embarque junto comigo em cada dobrinha de papel de bala que eu fiz, em cada reflexo metálico. Claro, se a pessoa estiver aberta a isso! Além disso, amo quando as pessoas dedicam mais tempo a realmente se perguntar sobre o porquê daquilo estar ali representado daquela forma. Quando sou afetada por uma obra eu solto uma risadinha sem querer e espero conseguir afetar de alguma forma alguém que vá se deparar com uma aquarela de casca de banana no meio do chão da galeria.

Acredito que quando dou um destaque a uma coisa extremamente trivial, as pessoas, na busca de algum sentido a mais na obra, acabam sendo transportadas de alguma forma para as suas próprias memórias. Fiquei super feliz de receber uma mensagem de uma moça que, ao ver minha aquarela de papel de bala (da série ABALADA), se lembrou do avô que sempre levava para ela balinhas desse tipo.

FTC: Com o que você se inspira?

Olha, eu diria que me inspiro em parte com coisas extremamente casuais, em parte com a arte moderna e contemporânea. Eu navego entre observar as cores e o jeito que a luz se comporta nas superfícies a textos teóricos sobre história da arte em dois segundos! Acho que minha inspiração de verdade vem de uma curiosidade genuína sobre o mundo. 

FTC: Qual tem sido o maior aprendizado desde o começo disso tudo? 

Acho que não dá pra falar da minha arte sem falar de mim, diria que é um dos processos mais íntimos possíveis, de transportar o que tem aqui dentro pro mundo lá fora. Por vezes é muito desafiador, crises artísticas vêm junto de brinde! Aprendi a lidar melhor comigo mesma e acima de tudo, a respeitar meu tempo… Já me obriguei inúmeras vezes a pintar quando não estava afim e o resultado nunca fica bom. Se a intenção não for verdadeira realmente não rola.

Outra coisa foi a própria aquarela que me ensinou: eu não tenho controle sobre as coisas. Fim! É até engraçado e paradoxal eu falando isso, porque minhas aquarelas hiper-realísticas são justamente o resultado de um grande controle sobre a água com tinta, mas a real é essa: por mais que eu tente, nunca vai ser igual, idêntico. O elemento surpresa sempre estará lá esperando para vir à tona. Além de que, no segundo que termino a aquarela e mostro ela paras pessoas, cada uma vai atribuir um significado diferente e eu amo essa possibilidade quase infinita da coisa.

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Carol T. Moré é editora do FTC. Internet, café, todo tipo de arte, viagens e pequenos detalhes da vida a fazem feliz. Acredita que boas histórias e inspirações transformadas em pixels conectam pessoas.

Carol T. Moré – já escreveu posts no Follow the Colours.


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