Artista paulistano Nunca é um dos mais proeminentes nomes da cena do grafite internacional

Francisco Rodrigues da Silva é mais conhecido mundo afora por seu pseudônimo Nunca. O paulistano de 36 anos é dos mais proeminentes nomes da cena do grafite internacional e dono de um estilo extremamente reconhecível.

Nunca usa uma técnica de grafite para criar imagens que confrontam o Brasil urbano moderno com seu passado e raízes, ao retratar os índios, costumes, a fauna e a flora do país. Suas referências fazem uma crítica à realidade globalizada e hiperconectada que segue marginalizando suas origens. “Faço da minha arte uma forma de questionar o que nós, como povo, estamos criando e cultivando culturalmente, do que é legitimamente brasileiro e do que é verdade ou mentira do ponto de vista histórico da nossa nação”, afirma o artista.

Das pixações em muros de Itaquera aos 12 anos, bairro simples no leste de São Paulo, onde a família vivia, à convites para expor na Europa, o artista começou a pintar, depois a produzir telas e esculturas e nunca mais parou. Agora, anos depois de sucesso no mundo todo, reúne algumas obras pela 1ª vez no Brasil.

São pinturas que fazem alusão à litogravura, técnica de impressão em metal usada desde 1500 pelos colonizadores, na mostra “Meide in Brazil”, que acontece na Galeria Kogan Amaro até 27 de julho 2019, após dezenas de exposições pelo globo.

Para a curadora Ana Carolina Ralston, o recurso aproxima o espectador das origens street do artista: “De perto, as ranhuras seguem paralelas, parecendo sulcos cravados em muros. Vistas em perspectiva, formam expressões, cicatrizes, delimitam o espaço e configuram o vasto universo criativo de Nunca”.

Não à toa, as figuras criadas por ele carregam a pátria de forma muito particular; do título da exposição às composições críticas, que se usam de logomarcas e produtos estrangeiros – uma forma de explicitar, segundo o artista, a desvalorização da nossa cultura.

Feitos com spray ou tinta acrílica, os personagens excluídos pela sociedade são protagonistas na obra de Nunca. Sobretudo os indígenas, como retratou em 2008, na fachada da Tate Modern, em Londres – feito inédito na história da galeria. Seus traços inspiraram toda uma geração de artistas de rua. Sua influência cresceu em todo o mundo depois de ser o mais jovem artista exibido no museu Tate Modern, em Londres naquele ano.

Ele também já trabalhou com outras grandes figuras da cena do graffiti de São Paulo, incluindo Os Gêmeos (o artista gêmeo Otavio e Gustavo Pandolfo) e a esposa de Otavio Pandolfo, Nina. 

REFERÊNCIAS DE NUNCA

A mistura de referências multiculturais é tão peculiar a Nunca quanto o viés transgressor que mora em seu nome artístico: “Adotei quando entendi a impossibilidade de se expressar pela cidade apenas por meio da arte. Enquanto isso, as propagandas de cigarros e bebidas alcoólicas é que são autorizadas. A ideologia de consumo nos é empurrada goela abaixo a todo o momento. ‘Nunca’ veio como uma negação a toda essa negação da nossa liberdade”, explica.

O olhar para isso aparece em Brinde, tela que o artista pintou há dez anos, em 2009, quando participou do primeiro time que coloriu os murais de Wynwood Walls em Miami. Neles, pintou um indígena arremessando um tênis em dois consumidores afogados sob objetos adquiridos nos outlets. “Vivemos um processo de neocolonização, em que marcas e produtos são os agentes de formação cultural do país”, afirma. É habitual esse elo entre seus diferentes formatos de produção. “Está tudo ligado, as obras, os murais, nós e nossos antepassados.”

Nunca, que começou a fazer grafites nas ruas de São Paulo aos 12 anos, é dono de um estilo pessoal inspirado nas tradições indígenas do Brasil. 

Seu trabalho foi mostrado em galerias e instituições em todo o mundo, incluindo Hong Kong, Pequim, Los Angeles, Milão, Bolonha, Lisboa, Kiev, etc. Nunca foi também o tema de muitos livros e publicações, incluindo The Huffington Post, NY e LA Times, bem como Art Review.

NUNCA – EXPOSIÇÃO MEIDE IN BRASIL

Roiko’i Haguã peraa va’kue roiko’i aguã (Devolvam a nossa terra que vocês tomaram)
Visitação: até 27 de julho de 2019
Horário: segunda a sexta, das 11h às 19h, e sábado, das 11h às 15h
Local: Galeria Kogan Amaro
Endereço: Alameda Franca, 1054 – Jardim Paulista, São Paulo, SP
Informações: (11) 3045-0944/0755 | info@galeriakoganamaro.com

Carol T. Moré é editora do FTC. Internet, café, todo tipo de arte, viagens e pequenos detalhes da vida a fazem feliz. Acredita que boas histórias e inspirações transformadas em pixels conectam pessoas.

Carol T. Moré – já escreveu posts no Follow the Colours.


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