A história social das casas de bonecas está em desacordo com a ideia de espaços de emoção, liberdade e imaginação. No início, elas tinham apenas dois propósitos: exibição e pedagogia.

Construídas pela primeira vez no século XVII no norte da Europa, principalmente na Alemanha, Holanda e Inglaterra, as casas de bonecas foram projetadas para adultos, e estavam intimamente associados à riqueza servindo como marcadores de classe social e status.

Casa de bonecas Stettheimer (1916–35): Ao longo de quase 20 anos, a artista Carrie Walter Stettheimer criou meticulosamente móveis e decorações artesanais para sua luxuosa casa de bonecas de 12 quartos em colaboração com Marcel Duchamp, Alexander Archipenko, George Bellows, Gaston Lachaise e Marguerite Zorach. Esta casa de bonecas é um exemplo de luxo e sofisticação difundidos na Era Dourada de Nova York. Ela traz pequenas obras de arte de vanguarda penduradas nos elegantes quartos.

Como Faith Eaton explica em The Ultimate Dolls House Book, a palavra alemã dockenhaus não significava casa de boneca, mas “casa em miniatura” – e uma casa em miniatura não era uma casa para brincar. Na Holanda, essas exposições de riqueza eram chamadas de “casas de armários”, pois a frente se abria como um armário de porcelana em dobradiças que podiam ser fechadas e trancadas para exibir e ocultar coleções de caros objetos em miniatura.

THE ROYAL DOLLHOUSE – 1921-24

Na Inglaterra do século XVIII, surgiu a versão “Baby House que consistia em uma réplica exata da casa do proprietário projetada para mostrar sua riqueza aos visitantes. É possível ter uma noção dos detalhes (e da extravagância) ao conhecer a casa de bonecas produzida para presentear a Família Real Britânica (The Royal Dollhouse), hoje considerada uma das miniaturas mais famosas do mundo.

Royal Collection Trust – Her Majesty Queen Elisabeth II. Fotografia: G. Newbery 

Projetada pelo arquiteto britânico Sir Edwin Lutyens, a casa precisou de mais de 1.500 artesãos e vários anos para ser concluída. Possui eletricidade, elevadores, água quente e fria, uma adega totalmente equipada, uma garagem com carros com motores funcionando e um jardim, tudo na escala 1:12.

Royal Collection Trust – Her Majesty Queen Elisabeth II. Fotografia: G. Newbery 

Os melhores artesãos e fabricantes da época, de Faberge a Cartier, contribuíram com escadas de mármore, serviços de jantar em prata, móveis bordados à mão e outras decorações – incluindo coroas cintilantes e tronos com almofadas de veludo – feitas com materiais apropriadamente caros.

Já as “cozinhas de Nuremberg” foram projetadas sem ornamentos para fins puramente utilitários e podem conter uma lareira, panelas, e vassoura de palha. Eram ferramentas de ensino para meninas que permitiam que mães mostrassem às filhas como gerenciar não apenas os objetos da casa, mas também seus criados. Era o oposto de uma casa de bonecas como um mundo de sonhos de fantasia, pois nesse caso elas aprendiam a se tornar a dona da casa.

Casa de bonecas de Sara Rothé: Casada com um rico comerciante de Amstel, na periferia de Amsterdã, Sara cobriu sua casa com quadros em miniatura, de alguns centímetros quadrados, pintados por verdadeiros artistas. Na salinha de jantar, a mesa apresenta-se posta, com talheres de prata maciça e pratos de faiança, além da biblioteca possuir livros minúsculos. (Imagem: cortesia de Gemeentemuseum Den Haag)

UMA “NOVA” UTILIDADE APÓS 2ª GUERRA MUNDIAL

Transformar as definições de infância no início do século XIX ressignificou as ideias sobre o brincar. Porém, foi necessária a revolução industrial e o aumento de objetos produzidos em massa para fazer com que as casas e seus utensílios passassem a ser interpretados como brinquedos. Ainda assim, apenas depois da Segunda Guerra Mundial, as miniaturas se tornaram acessíveis e começaram a ter uma nova utilidade: o imaginário.

Nos últimos anos, pela primeira vez desde a década de 1970, o interesse em casas de bonecas e miniaturas tem aumentado. Darren Thomas Scala é o proprietário da hashtag #rethinkdollhouse inventado para sua loja D. Thomas Fine Miniatures, uma nova loja de miniaturas no Condado de Westchester, Nova York. Na loja existem casas de bonecas dispostas em pedestais, um espaço de galeria com exposições rotativas e uma sala onde são realizadas oficinas de criação de miniaturas.

Darren afirma que espera perturbar a percepção de que miniaturas são apenas brinquedos fofos para crianças pequenas.Eu precisava que as pessoas vissem, sentissem e tocassem esses objetos”, explica ele, “para ver seu excelente artesanato, as delícias e os meandros de como eles são feitos e, principalmente, como eles fazem você se sentir. … eu queria fazê-los sentir que não há problema em tocar“.

Casa de Bonecas por Miriam Schapiro e Sherry Brody (1972): Farta do mundo da arte dominado por homens, em 1972, Judy Chicago e Miriam Schapiro, co-fundadoras do Programa de Arte Feminista do Instituto de Artes da Califórnia, criaram esta casa de bonecas. Todos os cômodos, da cozinha aos armários e banheiros, trazem obras de arte que exploram vários aspectos da experiência feminina. O projeto em larga escala se tornou um momento decisivo na história da arte feminista. A cozinha está vazia e, um bebê monstro aparece no berço. No estúdio, um homem – presumivelmente o marido da artista – é modelo nu para uma pintura abstrata. 

De fato, as casas de bonecas estão encantando uma geração nova e jovem. Atualmente, é possível encontrar diversos blogs voltados para exibição, produção e venda de miniaturas com design moderno e atual, como a One Brown Bear, a IKEA e o The Daily Mini que reúnem produções de vários artistas da comunidade de miniaturas.

Casa de Petronella Oortman (1686-1710): A casa de bonecas de Petronella ganhou fama e, a seu modo, virou uma espécie de atração turística. Em 1686, ela adquiriu uma linda casa de bonecas, da qual cuidou até 1710, usando materiais exclusivos para criar ambientes de luxo e encanto. Nenhuma despesa foi poupada para transformá-la em obra de arte. Quando morreu, a casa foi herdada por sua filha Hendrina que passou para outros membros da família, até ser adquirida pelo estado em 1821 e, em 1875, pelo Rijksmuseum, onde se encontra até hoje.

ALGUNS MODELOS CONTEMPORÂNEOS

DIY Miniature – Modern Container House (The Square to Spare)

Casa do Caleidoscópio, Laurie Simmons, 2001. A artista, já era bem conhecida por suas fotografias de quadros dramáticos situados dentro de casas de boneca. Em colaboração com o arquiteto Peter Wheelwright, ela projetou para crianças e adultos esta casa de boneca futurista. 

Essa casa container acima, por exemplo, você encontra no site Banggood para comprar e montar facilmente. 

Sala e cozinha (abaixo) em miniatura montada por @onebrownbear

Casa e detalhes de móveis por PrettyLittleMinisUK

Em 2015, em seu blog em miniatura, a antropóloga e artista Louise Krasniewicz escreveu seu “manifesto em miniatura”, pedindo que tudo isso fosse entendido em relação aos movimentos e tendências culturais atuais. Vinculando aqueles que constroem miniaturas à recente “cultura dos criadores”, ela sugere que “o que os miniaturistas estão fazendo é criar mundos, não apenas objetos em escala”. Para Krasniewicz, as miniaturas “não são uma fuga do mundo real, mas uma maneira de se envolver, confrontar, questionar, criticar ou considerar.” 

Fontes: The AtlanticArtsy.

Marjorie Simões é designer de interiores e artista visual. Curiosa, observadora e pesquisadora, adora aprender coisas distintas para depois conectá-las. Valoriza os trabalhos manuais, a cultura vernacular, a economia criativa e a produção/consumo sustentável. Acredita no poder das cores e tem leves faniquitos quando entra em ambientes beges.

Marjorie Simões – já escreveu posts no Follow the Colours.


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